Faço, logo existo

O paraíso perdido

Texto: Jan Schoenfelder, de Curitiba |23 de setembro de 2011

Acolher e transformar a vida de moradores de rua é a missão de um ex-boia-fria, preocupado em devolver o bem-estar e a dignidade a quem perdeu tudo
chamada

O lugar destoa, mas não chega a impressionar. Um conjunto simples de prédios de alvenaria, com dois pavimentos, misto de dormitório e escola, nem feio nem bonito, sem muito para se ver, na verdade. E também sem a menor relação com os ermos onde foi construído, um loteamento de chácaras em Mandirituba, 40 quilômetros ao sul de Curitiba, pontilhado de casinhas bucólicas com seus remansos, hortos, varandas, piscinas e criação.

A área foi escolhida de propósito por causa do acesso, difícil, como difícil é a vida da gente que ali mora: meninos de rua, sem família, sem limites, com um histórico de dependência de drogas, abuso e violência. Pintei feio o retrato? Não se assuste. As coisas mudam, ainda que no começo seja preciso endurecer sem perder a ternura. Quer um exemplo? Quando os moradores da região souberam que a finalidade do abrigo era acolher meninos de rua, a reação foi imediata. Ninguém queria “trombadinhas” pulando cerca, perturbando o sossego e tirando o sono dos justos. Que as crianças ficassem na cidade!

A resposta veio por meio de um argumento inatacável: “Vocês não percebem que, os meninos estando aqui, sendo cuidados e educados, a vida deles e, em consequência, a de vocês na cidade vai melhorar? Pra que condenar quem já nasceu condenado?” Lógica mais simples não havia. Mas teve queda de braço, discussão, muita conversa, até os moradoras afrouxarem. Que viessem os meninos! Foram.

Diga-se o que se quiser deles, uma coisa não é verdade: que, por terem transgredido todas as regras, são incorrigíveis. O projeto da chácara vingou e, sob desconfi ança e forte vigilância inicial dos vizinhos, os meninos puderam enfi m seguir rumo novo, agora num paraíso perdido, um lugar sem rua, o oposto de onde viviam. Se antes o destino apontava para o tráfi co, a cadeia, o caixão, agora passou a ser o de uma convivência saudável, respeito a valores, estudo, música, esporte, enfim, essas coisas comuns que tornam a vida boa e conferem o que mais falta ao roto, a dignidade.

A ideia da Fundação Educacional Meninos e Meninas de Rua Profeta Elias, também conhecida como Chácara Os Meninos de 4 Pinheiros, foi do ex-boia-fria e ex-monge carmelita, Fernando Gois, 54 anos, os últimos 30 devotados a fé, obediência e pobreza. Um homem que segue à risca suas convicções e para quem não há exatamente uma defi nição.

Nascido e criado numa comunidade de boias-frias, aos oito anos já era mão de obra familiar. Ajudava pai e mãe a sustentar a penca de irmãos. A mais velha, de 13, professora da escola rural, foi quem o alfabetizou. Fernando intercalava o estudo com o roçado, indo para as aulas dia sim, dia não, mas ganhando presença sempre. Pagou o preço da traquinagem quando, adolescente, entrou no seminário: “Senti o que foi ter estudado pela metade: só tirava notas baixas.”

As notas importavam, mas não eram tudo, porque a escola na qual realmente aprendeu foi a da lavoura e a da solidariedade que descobriu entre os pobres, quando, anos depois, adentrou pela primeira vez uma favela. “Os miseráveis são os únicos capazes de dividir uma marmita entre muitas bocas e cortar o cobertor para cada um ter um pedacinho. Jamais vi nada parecido em outro lugar.”

Pobreza ou solidariedade, ou ambos, difícil saber o que o tocou mais fundo. O fato é que chegou o dia em que jogou tudo para o alto, cama quentinha, lençois limpos, banho, quatro refeições diárias. Queria entender quem eram e o que sentiam os sem-teto. Para isso, nada melhor do que ser um deles. Foi para as ruas, catou papel, dormiu ao relento, sentiu na pele o peso de ser discriminado numa sociedade que limpa a consciência no assistencialismo.

Por causa de seu jeito simples, Fernando ganhou de um político o apelido de monge pé de chinelo. Vamos convir: serviu como uma luva, pois é de havaianas que vai aos encontros com o alto escalão de empresas e autoridades. Houvesse um rei a quem se dobrar, também ao rei se mostraria como é, vestindo a única roupa que possui, da qual nem sequer se sente dono, e com os pés fi ncados nos chinelos – estes sim, só dele. “Sou muito feliz. No meu armário só tem a roupa que ninguém quer.”

No período em que Fernando era seminarista, ele um dia quis descobrir o que ia na cabeça e no coração dos meninos da favela. Teve a lucidez de perguntar a eles, e não à assistente social, o que eles mais desejavam. A resposta até agride: uma casa. Daí a chácara ser uma espécie de lar, onde podem reaprender a viver. E a sonhar. “O sonho na vida dos meninos tem que ser feito uma sombra, acompanhando-os aonde forem. Casa eles já têm. O passo seguinte é o emprego, a faculdade. E com isso se sentirem dignos.”

Na contramão de todos que se esforçam por ter alguma coisa, ele luta para não ter nada. Mas não radicaliza. Aceita que as pessoas se preocupem com bolsas, TVs de plasma, joias. O que não aceita é que, ocupando- se só disso, ignorem a situação dos favelados, cuja vida é mais importante que qualquer tênis de marca.

Felizmente, nem todo mundo é assim. O prêmio Nobel da Paz, o argentino Adolfo Perez Esquivel, acompanha de perto a situação da chácara e já a visitou mais de uma vez. Autoridades do Judiciário também, mulheres e homens públicos, empresárias e empresários conscienciosos, que sempre aparecem por lá e ajudam a manter o projeto. E gente do povo, sem distinção. Cada um, a seu modo, entende muito bem o que o cônsul japonês, Koichi Aoyama, após doar uma sala inteira de equipamentos de informática à chácara, traduziu, dizendo: “O insucesso de uma criança de rua no Brasil é o fracasso da humanidade.”

Reparo a mesa grande em torno da qual estamos sentados, a prateleira forrada de livros técnicos, os computadores antigos, os móveis improvisados. Visito as salas de aula, passeio pelos corredores. Alguns quartos estão abertos. Só uma cama, um guarda-roupa. Nada mais. Um garoto deitado nos lança um olhar indiferente. Tento tirar dali a essência do que Fernando quer dizer com “lar”. De volta ao escritório, a parede me oferece fotos dos adolescentes sorrindo, abraçados no quintal, jogando bola, rezando, bonés atravessados na cabeça. Brincando como se estivessem numa colônia de férias. “Tudo se alcança com educação. Educação que dá exemplo de valores. Valores que revertem em novos sonhos”, diz o homem com uma serenidade que poucas vezes vi.

Mas nada deu errado? Deu. Fernando lembra de um garoto órfão, pela violência, que fi cou uns tempos na chácara, mas voltou para a casa dos avós. Queria ser jogador de futebol. Terminou levando um tiro durante um assalto. Fato que contrasta com histórias como a de Adilson Pereira de Souza. Ele chegou trazendo na bagagem dez anos de vida nas ruas e um perfi l de violência que parecia incurável. Pois é. Adilson resolveu seus confl itos, voltou para a família, conseguiu trabalho, formou-se em Serviço Social e hoje comanda uma ONG que tenta tirar outros garotos das drogas.

Fernando também se preocupa com a natureza. “Ela é linda, não é?”, diz, apontando o verde dos derredores e o raro céu azul de fevereiro. Olho aquele mato sem fi m, a construção verde oliva que abriga os meninos, o jardim que eu nem havia percebido quando cheguei, a grama cortada rente, o colorido das fl ores, e em seguida olho para Fernando. As roupas emprestadas folgadas, os óculos pendendo sobre o peito, a ansiedade latente pelo tanto a fazer.

 

RAIO X

• A Chácara Os Meninos de 4 Pinheiros atende 80 jovens que, lá, têm seus direitos fundamentais (acesso à escola, saúde, promoção social e trabalho) garantidos. Eles são acolhidos por 25 educadores.

• Dois jovens que viveram na Chácara já concluíram o ensino superior. Julio César de Oliveira é graduado em Administração e faz um segundo curso: Direito. Adilson Pereira de Souza se formou em Serviço Social e agora cursa Pós-Graduação na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Outros dois cursam Informática e Turismo.

• Nos 16 anos de funcionamento da Chácara, cerca de 50 meninos já retornaram ao convívio familiar nas condições previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

• Dos meninos atendidos, dez se tornara educadores. Desses, cinco ainda continuam atuando na instituição.

• Cerca de 50 meninos já foram encaminhados ao mercado de trabalho.

• Mais de 1.500 pessoas da comunidade local são envolvidas no projeto.

• Mais de 200 voluntários participam das atividades na Chácara todos os anos.

 

SAIBA MAIS:

Chácara Os Meninos de 4 Pinheiros. BR 116, km 149, Rua Secundária s/n. Mandirituba/PR. (41) 3633-1159.

www.4pinheiros.org.br / fundação@4pinheiros.org.br

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